domingo, 2 de agosto de 2009

Ingrata



Em homenagem ao amor
de Daniel e Altaíde
Teresina, 01/08/2009


INGRATA
marcos|leonidio

Ingrata
mulher sem alma
pede-me calma
mas vive a me martirizar

Ingrata
mulher que arraiga meus sentimentos
és a ressalva
que eu não quero viver

Ingrata
não quero que me peças nada
eu preciso me libertar
desse amor

Ingrata
já não sei onde começa
onde termina
meu desespero
tenho pressa
de tornar-me, novamente, inteiro

Ingrata
já não penso em mais nada
vejo minha vida dilacerada
distante do seu viver!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A Lua



A LUA
marcos|leonidio

A lua desnuda
cristalina
reveladora
misteriosa
transparente - graciosa
carente - vigorosa
solitária - amorosa

A lua imponente
simples
redonda
generosa com a noite
se esconde ao amanhecer
é contraponto do Sol
mas fundamental também

A lua incandescente
natural - linda
menina sem face
mulher de fases
atrai nossos olhares
é cativante
muda de formas
mas ainda assim
mantém seu charme divinal

atrai a Terra
atrai os oceanos
atrai os namorados
atrai os astros
atrai os astronautas
atrai os astrólogos
atrai as guerras terrenas
de quem quer ser imperial

Deixem a lua lá
iluminada
ela só quer ser
contemplada
cortejada
enamorada
mas não quer ser tocada
só focada!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

cristais



CRISTAIS
marcos|leonidio

Quando se quebra um cristal,
não é mais possível solidificá-lo outra vez,
melhor cuidar dos outros cristais
e deixar o quebrado esquecido!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

paisagem sem cor



PAISAGEM SEM COR
marcos|leonidio

curvei-me diante da cruz
pressupus que orar era o suficiente
ledo engano
minha fé caminha pelo racional
ando me desfazendo
dos princípios puritanos

minha busca arrefeceu
segue sangrando minhas angústias
minhas culpas e outras ranhuras
por entre minhas entranhas
doces amargas verdades cruas

curvei-me diante da encruzilhada
guiado por minhas imperfeições
meu senso crítico está afetado
suas aferições
estão recobertas de maus presságios

minha autoconfiança
é fio condutor de tênue esperança
há muito crocodilagem à minha margem
meu cais não tem som
silencioso é miragem
paisagem sem cor
maçã sem cor do sangue do amor

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Sou Meu Eu



SOU MEU EU
marcos|leonidio

sou luar de quem a noite esqueceu
sou meu próprio apogeu

sou o abismo que se apresenta em meu caminho
sou o vento que me afasta de mim mesmo
sou a alegria que não me deixa sozinho

sou minha angústia dilacerada
sou minha verdade deslavada

sou meu ponto de luz no universo
sou meu sucesso e retrocesso

sou aquilo que realmente pensam
sou o inverso da notícia que alimentam

sou intransigente comigo mesmo
sou fragmentos dos meus desejos

sou angustiado por natureza
sou fomentador de deliciosas estranhezas

sou meu algoz inconsciente
sou meu herói onipresente

sou quase imperceptível
mas, quero viver versando pela vida
demarcando minhas andanças
quero viver livre (mesmo em pensamento)
feito minhas doces crianças!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

ela tomou conta de mim



ELA TOMOU CONTA DE MIM
marcos|leonidio

se estou com ela - tô rico
se estou sem ela - tô pobre
sem ela, sou visco
com ela, sou nobre

se ela está nos meus braços - tô pleno
se ela não está comigo - tô vazio
sem ela, sou feno
com ela, sou varonil

se ela me sorri - viro sol
se ela não me enxerga - viro inverno
sem ela, sou simples anzol
com ela, sou extenso e eterno

se ela põe aquele vestido - me encanto
se ela fica triste - me desfaço
sem ela, sou desencanto
com ela, sou homem d'aço

se ela me beija - viro pássaro
se ela me abandona - viro ermitão
sem ela, sou raso
com ela, sou fervente paixão!

terça-feira, 5 de maio de 2009

concretismo



c.o.n.c.r.e.t.i.s.m.o.
marcos|leonidio

misturados ao concreto
os prédios não têm cor
a cidade acinzentada
não constrói mais amor

são paisagens perdidas
num concretismo frio
todas as razões canalizadas
pra um fúnebre fúnil
extenso e vazio

misturados ao concreto
os prédios não têm alma
todas as certezas ficam em aberto
não há mais válvula de escape
os ventos vão pro deserto,
pro deserto de Marte

calculamos mal as possibilidades!
a violência contra a natureza, inclusive humana
é notícia pequena num rodapé de jornal
todas as ambigüidades,
falecerão abraçadas, misturadas ao sal [...]

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Vocês hão de entender!



Vocês hão de entender!
marcos | leonidio

Há muito mais a entender!
muito mais do que tem sido dito
além do que está escrito.
É preciso jogar luz
naquilo que está enrustido [...]

Há muito mais a receber!
muito mais do que tem sido oferecido
além do que está sendo previsto.
É preciso cavar mais, ir mais fundo
pra encontrar aquilo que está perdido [...]

Há muito mais a resgatar!
muito mais do que tem sido propagado
além do que está sendo reavivado.
É preciso salvar mais e mais
os corpos e as almas dos desavisados [...]

Há muito mais a criticar!
muito mais do que tem sido mensurado
além do que está sendo ventilado.
É preciso verticalizar as idéias
para romper os muros que protegem prevaricados!

sexta-feira, 6 de março de 2009

NóS ToDoS



NÓS TODOS - m.leonidio

todos nós
temos a obrigação
de desatar todos os nós
que estão atravancando nossa jornada

não importa se são pequenos, médios ou grandes
é preciso desarmá-los, deixá-los soltos
para que possamos voar, navegar ou surfar por aí

se encontrarmos pelo nosso caminho
algumas nozes, capazes de acidentar
nossos passos
também temos obrigação de quebrá-las

não podemos deixar
que os nós fiquem cegos
temos que ser pacientes, hábeis
não é necessário usar força bruta
é preciso flexibilidade e decisão

cuide de seus nós
não deixe que eles interrompam
suas buscas
voe em pensamento
voe pelo tempo!

globalização



GLOBALIZAÇÃO - m.leonidio

acordar
levantar trabalhar comer dormir
acordar

não tá dando tempo nem de sonhar
tudo tem acontecido numa velocidade avassaladora

a repetição dos fatos
passa veloz aos nossos olhos
não esboçamos reação

como parar essa roda viva? [...]
se estamos no meio do furacão
se não conseguimos nos ajeitar
se somos jogados para todos os lados

tudo muito estranho
os sons são aterrorizantes
o silêncio é mortal
e as perspectivas?
estão impregnadas em amargas ilusões

deve haver um jeito
um movimento linear
que obstrua essa loucura
essa contemporaneidade traiçoeira
capaz de tudo destruir
e todos destruir

a globalização precisa
ser fatiada, esmiuçada
distribuída em pequenas porções
e não empurrada goela abaixo
sem piedade
sem necessidade

a ansiedade das mudanças
está sufocando a grande maioria
a respiração ofegante do globo e das nações
já dá sinais de que precisamos reavaliar
e reavaliar
as imposições do mundo moderno [...]

acordar
levantar trabalhar comer dormir
acordar

- refletir agir desacelerar -

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

E assim seja!



E assim seja!
marcos | leonidio

Para que sejamos todos felizes
é preciso sorrir
cometer alguns saborosos deslizes
é preciso deixar de resistir

Para que sejamos todos felizes
é preciso por o pé na lama
realizar os mais secretos fetiches
trafegar por outras entranhas

Para que sejamos todos felizes
é preciso ficar uma pouco à toa
fazer da vida um gostoso release
e experimentar todas as coisas boas

Para que sejamos todos felizes
é preciso se deixar seduzir
assumir enrustidas maluquices
e não ter medo de deixar fluir.

desencanto



desencanto
marcos | leonidio

nosso amor andava de mãos dadas
nas praias
nas ruas
nas enseadas
nas noites chuvosas
nas alamedas
nas praças
nos momentos de dor
nas adversidades
caminhávamos entre espinhos
pra colher a mesma flor.

em algum momento
nossas buscas ficaram turvas
após vento forte
não acompanhamos a curva
a tempestade tomou conta
depois duma noite de ressaca
não houve contenção
nosso amor se perdeu na braqueada¹

nossas mãos se perderam
nossos olhos não voltaram a sorrir
a alma padeceu
perdeu encanto
o sol entristeceu
adormeceu em outro canto!

nota: braqueada¹, pop. pirambeira, abismo, terreno caótico, terreno acidentado.

Nuances



Nuances
marcos | leonidio

Na bela e decadente cidade-cinza
belas-meninas e meninas-belas
ocupam espaciais vertigens.

Na bela e decadente cidade-cinza
belas-meninas e meninas-belas
divergem olhares
mas buscam os mesmos finais!

Na bela e decadente cidade-cinza
belas-meninas e meninas-belas
ocupam hiatos
sociais e velados.

Na bela e decadente cidade-cinza
belas-meninas e meninas-belas
transacionam
virtualidades infames.

Na bela e decadente cidade-cinza
belas-meninas e meninas-belas
fazem parte da porção azul
mas desenvolvem-se da porção vermelha.

porta fechada


PORta FECHAda
m.leonidio

a porta se fechou
nada mais vai mudar isso [...]
enterramos agora, aquele nosso compromisso
o acordado, dolorosamente findou

a porta se fechou
você teve tempo pra perceber [...]
que não haveria retroceder
o pleno, arredondado, desintegrou

a porta se fechou
e não há como recompor [...]
fez-se noite o esplendor
o doce sabor, amargou!

a porta se fechou
enalteça seu feito
o sonho era colorido - agora é imperfeito
o impermeável encharcou [...]

sábado, 14 de fevereiro de 2009

NUanCES da AmiZaDE



14 de Fevereiro, Dia da Amizade

Nuances da Amizade |||| Marcos Leonidio

A amizade pode ser
uma maçã vermelha, incrivelmente perfeita,
capaz de refletir sua alma e o brilho do seu sorriso.

A amizade pode ser
um formoso conjunto de flores do campo
tocadas apenas pela suave brisa do norte
e banhadas pelo aconchegante sol do sul.

A amizade pode conter
traços magistrais de Picasso,
viagens transcendentais de Van Gogh,
surrealismo introspectivo de Dalí,
ousadia vanguardista de Tarsila.

A amizade pode ser sentida
nos textos viscerais, de
Drummond, Cecília Meirelles, Vinícius,
Castro Alves, Mario Quintana, Manuel Bandeira,
Gonçalves Dias e cia.

A amizade pode vociferar
verdades indivisíveis
- a partir de um olhar profundo
- de um gesto mais agudo
- de um sorriso amarelo
- ou, de um pranto singelo.

A amizade pode transformar
- terras infertéis
em solos fecundos
- vontades indigestas
em realizações promissoras
- virtuais moribundos
em cavalheiros d'aurora.

Como? [...]

Fecundando-a, alimentando-a,
emancipando-a, relacionando-a
aos seus sentimentos mais pungentes.

A amizade pode quase tudo [...]

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Não deixe sua alma envelhecer



Não deixe sua alma envelhecer,
se for preciso,
vá para o outro lado do espelho,
a acaricie, a cubra de beijos,
a rejuvenesça plena.

Não deixe sua alma envelhecer,
senão o corpo padece,
sua natureza entristece, inerte.
Senão as maleabilidades da vida
tornam-se rijas e inoperantes.

Não deixe sua alma envelhecer,
o tempo não precisa ser administrado,
ele precisa somente ser vivenciado!
Não tente elucidar todos os mistérios,
será em vão [...]

Não deixe sua alma envelhecer,
também não deixe que ela amadureça muito,
só o suficiente para tornar a vida mais leve.
Se houver excesso de amadurecimento,
tudo fica muito previsível,
e sua coragem em buscar o desconhecido
é substituída pela covardia,
pela conservadora mania que temos,
de prever o resultado,
antes de processar cada equação.

Não deixe sua alma envelhecer,
deixe que ela se sinta permanentemente jovem,
vigorosa, audaz e aventureira.

Marcos Leonidio

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

coração despedaçado



coração despedaçado
m.leonidio

você me fez conhecer a Lua
e outras galáxias
me embeveceu - sem que eu
tivesse tomado uma única taça de vinho

você me fez navegar em mares serenos e azuis
laureados por noites sensuais e enluaradas
manhãs cristalinas e ensolaradas

você reavivou todos os sentimentos
há tempos adormecidos
minha fuga se fez desnecessária
era preciso viver a vida intensamente

você - independente
não se deixou aproximar muito
arredia! você racionalizou
todo aquele sentimento
e me fez um juramento:
viver feliz, mesmo longe de mim!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

abismo



aBi____S______mO
-- marcos leonidio --

nada mais nos aproxima
nem o doce sabor do verão
nem as manhãs que anunciam a primavera
nem as tardes que celebram o outono
nem nossos banhos de piscina à beira-mar

nada mais nos aproxima
nem as divergências circunstanciais
nem a vontade de querer bem
nem a nostalgia que ainda contagia
nem o clamor dos nossos corações

nada mais nos aproxima
nem as revelações do passado
nem as buscas do presente
nem as realizações pro futuro
nem o discurso maduro
temperado por um ciúme imaturo

nada mais nos aproxima
nem as realidades sonhadas
nem os sonhos realizados
nem a apaixonante alegria
dos beijos trocados

nada mais nos aproxima
nem a proximidade dos olhos
nem o calor dos corpos
nem a profundidade das nossas almas
nem o entendimento
desenvolvido a partir
dum doloroso sofrimento